Pós-graduações IMED 2013

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sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Cattel e o primeiro laboratório de psicometria

A psicometria nasceu como ciência na Universidade de Cambridge, entre os anos de 1886 e 1889. O primeiro laboratório sobre este tema foi coordenado por James McKeen Cattell.

Nos primórdios do laboratório, Cattel, um psicólogo americano, mantinha frequente contato com Francis Galton em Londres. Rapidamente identificou o potencial de estudos ao relacionar a psicofísica de Wundt com a matemática de Galton no exame das diferenças individuais.


O primeiro laboratório do mundo dedicado para o estudo da psicometria foi implantado junto ao Cavendish Laboratory. A importância deste lugar está no fato de que oportunizou as descobertas que levaram a 21 prêmios Nobel, tendo sido frequentado pelas mentes mais brilhantes do século XX. Com a mudança de Cattel para a University of Pennsylvania, por mais de dez anos não houve outro laboratório de psicologia em Cambridge.

De forma diferente de Galton, Cattel buscava enfocar nos aspectos psicológicos e comportamentais propriamente ditos, não considerando com a mesma intensidade a ênfase de Galton nos aspectos físicos em sua relação com o comportamento. Essas divergências, contudo, auxiliaram no amadurecimento de várias ideias sobre a avaliação do comportamento, e auxiliou no aprimoramento da estatística como ferramenta fundamental para a identificação de diferenças individuais.

Fonte: The Psychometrics Centre, tradução livre

quinta-feira, 12 de julho de 2012

A avaliação neuropsicológica


No contexto da neurologia, especialmente na clínica, torna-se fundamental uma avaliação adequada das funções executivas, especialmente na ocorrência de alguma patologia. A avaliação neuropsicológica propõe-se a realizar este levantamento, identificando funções preservadas e quais, em qual extensão, estão sendo prejudicadas.

A avaliação neuropsicológica consiste num processo de levantamento de informações, a partir de instrumentos e de avaliação clínica, sendo num primeiro passo para o estabelecimento de uma estratégia de tratamento. Patologia cerebrais, como acidente vascular encefálico, traumatismos, presença de tumores e patologias senis (incluindo Alzheimer) podem ser avaliadas com os instrumentos e técnicas desenvolvidas por neuropsicólogos.



As funções executivas avaliadas podem ser as mais diversas, como memória, atenção, linguagem, capacidade de raciocínio matemático e a sensopercepção. Os escores obtidos permitem traçar um perfil, apontando quais funções estão mais prejudicadas e indicando estratégias de tratamento mais precisas.

O processo de avaliação neuropsicológica consiste essencialmente dos mesmos passos do processo psicodiagnóstico: identificação das queixas e sintomas (que consiste numa avaliação prévia do caso específico que está sendo avaliado), estabelecimento do plano de trabalho (com a escolha dos instrumentos e processo de avaliação), aplicação do processo de levantamento de informações, elaboração dos dados e posterior devolução das informações.

A avaliação neuropsicológica também tem grande importância no contexto da pesquisa. Ela permite identificar aspectos do comportamento e suas relações com determinadas estruturas anatômicas. A combinação entre os dados de testagem com outras técnicas, como por exemplo de neuroimagem, traçam um panorama complexo do funcionamento do cérebro.

Sugestão de leitura: CUNHA, Jurema A. O ABC da avaliação neuropsicológica. In: ________ (Org.). Psicodiagnóstico-V. Porto Alegre: Artmed, 2000. Cap. 15, p. 171-176.

domingo, 29 de janeiro de 2012

Pôsteres apresentados no V Congresso de Avaliação Psicológica/2011

O CETEST participou do V Congresso Brasileiro de Avaliação Psicológica, que ocorreu entre 31 de maio e 4 de junho de 2011 em Bento Gonçalves. No congresso ocorreram mesas-redondas, cursos e apresentação de trabalhos e pôsteres. Aproveitamos o momento para apresentar um breve estudo sobre os pôsteres apresentados, e que podem ser indicativos das tendências em pesquisa na avaliação psicológica contemporânea.

A amostra desta análise abrange 97 pôsteres. A maior parte deles é de avaliações e/ou estudos de caso. Em seguida vêm os trabalhos estudando testes psicométricos e de revisão bibliográfica ou estudos teóricos, que aparecem quase empatados. Finalmente, seguem os trabalhos com caráter de pesquisa com a aplicação de algum instrumento, e finalmente estudos com testes projetivos.


Chama a atenção a grande quantidade de estudos de caso e revisão de bibliografia. Estes dados parecem indicar tendências ou preferências de pesquisa, talvez pela facilidade e praticidade na elaboração de estudos de caso ou na compilação de dados já existentes na bibliografia. Contudo, estudos de casos indicam uma preferência por análises singulares, característica da prática clínica, e estudos teóricos talvez agregem menos em termos de inovação no conhecimento, servindo mais como uma síntese. Também chama a atenção a última posição em número de trabalhos sobre técnicas projetivas, mostrando uma forte ênfase em instrumentos psicométricos.

Em relação à teoria de referência, para os 23 pôsteres que utilizaram instrumentos em seus estudos, nota-se que em metade deles não há referência explícita à teoria utilizada. Os demais trabalhos apresentam heterogeneidade de teorias, indicativo de uma diversidade de temas e dimensões avaliadas.


O fato de não haver referência explícita à teoria de base dos instrumentos utilizados pode ser indicativa de uma falta de preocupação com os conhecimentos que norteiam o tema ou o instrumento. Em nossa opinião, numa área tão complexa e diversificada como é a psicologia, o ponto de partida de um trabalho deveria ser a menção explícita à teoria utilizada. Não fazer uma menção clara a isso pode prejudicar a qualidade do trabalho, visto que a psicologia está longe de ter unidade teórica; assim, esta clareza precisa estar presente.

Há uma diversidade interessante de traços, características e/ou comportamentos avaliados nos trabalhos apresentados que utilizaram instrumentos psicológicos. O gráfico abaixo mostra esta diversidade, indicando que a pesquisa com instrumentos não está restrita a um tema ou área específica, sendo bastante abrangente.


Dos 23 instrumentos dos trabalhos, 10 deles são novos, construídos no Brasil ou no exterior. Nove outros estudos dizem respeito a instrumentos traduzidos, validados ou não, e quatro estudos referem-se a processos de revisão, necessários para que se mantenham atualizados de acordo com as orientações do CFP. Assim, há um equilíbrio entre testes brasileiros e testes traduzidos, que pode sugerir a forte influência de instrumentos estrangeiros sobre o trabalho dos pesquisadores brasileiros.


Sobre o público dos estudos dos 23 trabalhos com instrumentos, observa-se que a maioria deles é com população adulta, seguido por investigações com crianças e instrumentos para amostra mista, como por exemplo, crianças e adolescentes. Somente um estudo faz referência à casais e família e dois deles para idosos.


A hegemonia da população adulta nos trabalhos, seguida pelos estudos com a população infantil, indica tendências de pesquisa e construção de instrumentos psicológicos com estas amostras. Contudo, a escassez de instrumentos para idosos e para casais e família pode indicar uma lacuna, ao mesmo tempo em que é sintomática. No caso de estudos com casais e família, isto pode ocorrer em virtude de uma prática de não realização de avaliação clínica com instrumentos, prática historicamente associada às teorias predominantes de casais e família que de certa forma são refratárias ao uso de instrumentos de avaliação.

A avaliação psicológica brasileira, sempre a par dos desafios propostos, pode lançar um olhar para os aspectos apontados nestes comentários. Estudos com testes projetivos talvez mereçam atenção especial dos pesquisadores, visto que estes instrumentos são largamente aplicados no contexto clínico, e é notável o baixo número de pesquisas com estes instrumentos nos pôsteres do congresso. Talvez isso se deva à complexidade da avaliação projetiva, que é ao mesmo tempo a sua riqueza, mas que, em termos de pesquisa, traz grandes desafios.

E por fim, cremos ser fundamental que os trabalhos mencionem explicitamente, como já comentado, a teoria de referência, pois não ter esta informação claramente pode prejudicar a compreensão do leitor sobre os pressupostos utilizados na avaliação com o instrumento.

domingo, 15 de janeiro de 2012

A frenologia e a avaliação do comportamento

Mesmo que houvessem indícios pré-cristãos de que o cérebro estava relacionado com o comportamento, estudos mais sistematizados sobre a anatomia e a fisiologia do cérebro buscando compreender cientificamente o seu funcionamento datam do século XIX. Uma destas tentativas de compreensão é a frenologia.

A frenologia foi uma área sistematizada por Franz Joseph Gall por volta do fim do século XVIII e início do século XIX. Tinha por pressuposto que regiões diferentes do cérebro seriam responsáveis pelo controle de determinadas funções. Mapear estas regiões e mensurar o seu tamanho seriam os pontos de partida para uma correta avaliação do comportamento.

Franz Gall. Fonte: digitalgallery.nypl.org

O cérebro era entendido como um órgão composto por outros órgãos, onde cada um destes "compartimentos" ou regiões era responsável por uma faculdade mental específica. O uso de uma destas  faculdades faria com que a região aumentasse de tamanho, o que poderia ser aferido pela mensuração das áreas do crânio aumentadas ou diminuídas. Desta forma, seria possível avaliar o perfil de personalidade das pessoas: medindo cristas e depressões do crânio, indicativos de um funcionamento maior ou menor de uma faculdade mental. Se uma região estava aumentada, a pessoa poderia ter uma atrofia no comportamento "honestidade", ou se estava com um leve afundamento, significava que poderia ter menos "esperança no futuro". Desenvolveu instrumentos para medir estas regiões do crânio, e foi um dos primeiros a estabelecer estatisticamente características de comportamento com estas medidas. O estudo da personalidade com base nestes pressupostos foi batizado de frenologia, ou estudo da alma/espírito (clique na imagem para ver a descrição das regiões, em inglês).


A frenologia competiu, por um bom tempo, com as idéias de Jean Pierre Flourens, que defendia que o cérebro funcionava como um "todo", sem partes especializadas. Muito da sustentação de Flourens baseava-se no estudo do aprendizado de ratos: ele observou que os ratos conseguiam resolver um labirinto, mesmo com remoção de partes substanciais do encéfalo. Assim, defendia que o cérebro, como um todo, era responsável pelo comportamento. Nenhuma destas correntes permaneceu como dominantes, mas contribuíram para uma compreensão do funcionamento modular do cérebro, que foi teorizada posteriormente por Santiago Ramón y Cajal. Hoje, a frenologia faz parte da história, mas ainda se encontram pseudocientistas defensores destas idéias.

Estudos posteriores demonstraram que o cérebro realmente possui regiões especializadas, e que é possível estudá-las. Entretanto, esta especialização está longe daquilo que Gall defendia; as funções especializadas do cérebro dizem respeito a habilidades mais básicas, como o processamento da imagem, processamento auditivo e associação de conceitos, e é a integração destas funções que permitem a complexidade do comportamento humano.

Fonte: KANDEL, E. R.; SCHWARTZ, J. H.; JESSEL, T. M. Cérebro e comportamento. In: ______. Fundamentos da neurociência e do comportamento. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1997. Cap. 1, p. 5-15.

sábado, 29 de outubro de 2011

A medida do sentimento

A avaliação psicológica constitui-se numa estratégia utilizada para traçar um perfil ou estabelecer um valor sobre algum elemento mental: habilidades cognitivas, habilidades motoras ou afetos, para mencionar somente os principais tópicos avaliados pelos instrumentos disponíveis no mercado.

Entretanto, aquilo que os instrumentos psicológicos avaliam são subjetivos e, em grande parte das medidas, imponderáveis. Como se pode dizer que um paciente apresenta mais sintomas depressivos do que outro? Quão grande é a tristeza de cada um, se ela é uma experiência privada?

Quando falamos de instrumentos que avaliam sentimentos, por exemplo, precisamos considerar que estamos avaliando as respostas de uma pessoa (o testando) em relação a um conjunto amplo de pessoas que foi entrevistado para a montagem do instrumento (a amostra). Por isso, duas coisas são fundamentais na montagem de um bom instrumento: uma boa teoria, que define de forma a mais precisa possível aquilo que se está tentando avaliar, e um bom tratamento estatístico da amostra.

A teoria é fundamental porque ela dá os parâmetros daquilo que estamos estudando. Um instrumento que avalia ansiedade, por exemplo, precisa ter claro o que é entendido por ansiedade. Se isto não for adequadamente definido, o testando até pode responder a pergunta, mas ela, na verdade, não estará dizendo muita coisa, porque a informação não está relacionada com aquilo que as pesquisas definem como ansiedade.

Esta é a principal diferença com outros tipos de investigação, como por exemplo aquela que foi conduzida pela Harvard University na cidade de Somerville. Na realização do censo, foram incluídas algumas questões para identificar o quão felizes as pessoas de Somerville estão. Podemos avaliar o nível de felicidade das pessoas, neste caso, sem nos preocuparmos em definir o que é a felicidade. Mas num teste psicológico, o ponto de partida é a adequada definição daquilo que se quer investigar.

Somerville, MA (Fonte: www.myLot.com)

E o segundo ponto diz respeito aos aspectos psicométricos. Depois que temos as informações, é necessário levantar o perfil estatístico das respostas, pois é com base neste perfil que depois poderemos dizer se um paciente apresenta ou não sintomas que necessitem atenção clínica. Assim são organizados os testes psicométricos.

Mesmo subjetivos, os sentimentos podem ser avaliados, e é partindo deste princípio que os instrumentos psicológicos são construídos.

sábado, 13 de agosto de 2011

Testes psicológicos publicados em língua inglesa

O 17th Mental Measurements Yearbook, manual do Buros Institute of Mental Measurements da Universidade de Nebraska, apresenta periodicamente uma listagem de testes publicados em língua inglesa. Os testes listados nesta publicação são escolhidos por apresentar critérios mínimos de informação, tais como título, finalidade, população, data de publicação, acrônimo (sigla), critérios de administração, formas, parte e/ou níveis, manual, se a distribuição é reservada, preço do teste, edições especiais (em língua estrangeira, inclusive), tempo de aplicação, comentários, nome dos autores, editores, adaptações para outras línguas, presença de subtestes e referências cruzadas (p. xiii-xiv).

Consultando a publicação, observa-se a seguinte distribuição de áreas dos testes


Categoria de avaliação
Porcentagem
Avaliação do comportamento (inclui: testes vocacionais, testes de personalidade, comportamento, desenvolvimento e inteligência)
57,9%
Educacional (inclui: leitura, escrita, linguagem e desempenho matemático)
22,4%
Neuropsicológicos (inclui: avaliação neuropsicológica e desempenho sensório-motor)
12,0%
Miscelânea (não definidos em nenhuma categoria acima)
7,7%
Total
100,0%
Fonte: Geisinger, K. T.; Spies, R. A.; Carlson, J. F.; Plake, B. S. (2007). The Seventeenth Mental Measurements Yearbook. Nebraska: University of Nebraska-Lincoln, p. x. Adaptado.


O gráfico abaixo ilustra os dados da tabela:
Pode-se observar que a grande concentração dos 209 instrumentos da décima sétima edição do Mental Measurements aponta para testes de avaliação do comportamento. Em seguida, aparecem os testes para finalidades educacionais e os testes neuropsicológicos. Por fim, há uma categoria genérica de avaliações do comportamento, não incluídas nas anteriores.


Estes dados apontam para uma preferência dos pesquisadores na construção e publicação de testes vocacionais, de personalidade, comportamento, desenvolvimento e inteligência. Não aparecem nesta classificação, de forma explícita, instrumentos de avaliação específicos para o contexto organizacional. Pode-se supor que os instrumentos listados acima podem ser combinados para compor a avaliação no contexto organizacional, dependendo da necessidade.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Francis Galton e a psicometria

Um dos pioneiros na psicometria foi o inglês Francis Dalton (1822-1911). Nascido numa família aristocrática, desde cedo mostrou talentos intelectuais notáveis: lia aos quatro anos, citava substantivos e adjetivos em latim e realizava cálculos de multiplicação.

Fonte: galton.org

Mas essas habilidades não lhe garantiram sucesso acadêmico. Sua educação familiar, que incentivou a criatividade e a inovação, era incompatível com o sistema acadêmico vigente. Tornou-se assim um aluno mediano, sem obter o destaque acadêmico que ele e sua família desejavam.

Esse fracasso foi um fator que contibuiu para uma busca constante por uma razão para dedicar seu intelecto. Investiu em várias áreas: matemática, geografia, meteorologia, medicina. Mas foi com o sucesso de seu primo, o naturalista Charles Darwin, que resolveu voltar-se para o estudo das características mentais herdadas.

A obra de Galton intitulada Hereditary Genius obteve certo sucesso, ao defender que as habilidades mentais, especialmente a inteligência, seriam herdadas. Ao equiparar as características mentais às físicas e estipular os princípios desta herança, coloca no mesmo nível a mente e o corpo, e define que ambas podem ser regidas pelas mesmas leis.

Para Galton, a partir do princípio da hereditariedade da inteligência, seria necessário estipular o processo de "aprimoramento intelectual" da humanidade através da eugenia. Identificando os mais inteligentes e incentivando sua reprodução, a humanidade seria melhorada. Portanto, para identificar os mais inteligentes, seria necessária a aplicação de testagens.

Com seus conhecimentos de matemática, formula então alguns princípios ainda utilizados na avaliação do comportamento. Galton buscou mais identificar o que as pessoas possuem de diferente entre si, do ponto de vista mental, do que aquilo que compartilham. A estatística seria uma das disciplinas que poderia auxiliar nesta compreensão, definindo em qual posição na curva normal as pessoas estariam situadas em tal ou qual habilidade.

Historicamente, a contribuição de Galton foi importante por estipular alguns dos temas centrais que no futuro se tornaram pilares da avaliação psicológica.

Fonte: SILVA, Maria Cecília V. M. História dos testes psicológicos. São Paulo: Vetor, 2011.